terça-feira, 11 de janeiro de 2011

POESIA E PROSA - VERÃO II

ÊXODO


Exilaram-me de minha pátria e de mim mesmo. Um parto e uma partida madrastas diante da angustiante vida que me assola em terra longínqua e desconhecida. Um frio interno e intenso: ausência do outro.
Sem direito a despedidas e enlaces, fui banido dos sentimentos e vivências complexas das pessoas que me cercavam. Ninguém impediu que eu fosse ou pediu que eu ficasse. Naturalmente engoli uma despedida forçada de quem nunca quis ir, só ficar...
Arremessado para um caos social ideologicamente organizado sinto falta de mim. Quem sou? ... Apesar de saber quem são os meus pais e ser tatuado com o símbolo do Brasil e gente brasileira, não consigo encontrar-me. Abraço desesperadamente as fotos de infância tentando através da passagem ali mostrada encontrar marcas e significâncias do que fui e um resto do que ainda sou. Leio e releio e-mails antigos na esperança de através da linguagem resgatar fragmentos do outro em mim, mergulho no trabalho desgastante e as lacunas da alma e do coração não são preenchidas, sempre falta algo e alguém. Estou condenado à eterna e incansável busca pelo saciar de mim em mim mesmo. É a crise e a crise.
Minha língua mãe e a outra mãe adormecidas em terras diferentes balbuciam:
_ Não, você não tem ninguém, você não é nada, você é nenhum..
Neste convívio especular de milhões de seres e máscaras instáveis brigo com a ilegalidade e a perseguição do estranho. Não sou eu, são os outros que são também parte de mim.
Respiro um medo lancinante: imagino o paradoxo de ser diversos band-aids que confusos tentam cicatrizar os estilhaços lançados pelas pátrias, família e amigos. Sou ainda, a saliva seca e brilhante num refluxo de distanciamento e aproximação: um vazio enorme...um hiato inominável... Recordo-me...
Diante de uma foto antiga e embaçada persigo reminiscências ausentes: a banda de música, amores, faculdade, amigos, parentes, pais... Doloridos cortes, graves feridas e bruscas rupturas...Reflito... Existo?!
A vida, madrasta má, mostra-me o quanto as sombras podem interferir, invadir e ferir intensamente o lado de dentro e por dentro de alguém. Uma ardência latejante consome o meu desejo de voltar a ensimesmar e enfrentar os outros, diferentes de mim. É o basta ao processo de avestruzamento. Refaço-me...
Sem despedida nenhuma, como sempre, choro por não ter sido e pelo ainda não ser. Sou apenas coisificação: vendo a guitarra e o baixo, compro a passagem de só-ida a preço insignificante. Só há saída para qualquer lócus da falta. Sou objeto do tempo, da festa rave e dos shows de nü metal. Sou pressão e depressão diante das violentas máscaras presentes nesta terra de gigantes, diferente e alheia ao que ou quem sou... Recomeço a caminhada, decido o percurso. É a tentativa de identificação. Rumino...

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